O chefe do departamento médico da União Ciclística Internacional (UCI), Xavier Bigard, fez um alerta contundente sobre os grandes riscos que ciclistas amadores vêm correndo ao recorrer às redes sociais em busca de versões totalmente imprecisas dos programas nutricionais usados por atletas profissionais.

“Estou lendo coisas absolutamente aterrorizantes, sem qualquer base factual”, disse Bigard ao jornal Ouest-France nesta semana.

Na mesma entrevista, Bigard também afirmou que a formação em nutrição esportiva na França está atualmente em níveis “absolutamente catastróficos”, especialmente para quem deseja seguir carreira profissional nessa área no país.

“Basicamente, em termos de medicina e medicina esportiva, falando estritamente, não existe nenhuma formação disponível nessa área”, afirmou.

Na França, a escassez de profissionais locais bem formados não impediu a tendência de jovens amadores recorrerem a informações falsas nas redes sociais, alertou Bigard.

“Alguns imitam os hábitos nutricionais dos profissionais, o que é arriscado para a saúde. Mas é difícil educá-los corretamente, porque encontramos muita desinformação sobre nutrição nas redes sociais. É uma catástrofe”, disse o médico.

“Isso vende, e o pobre amador que utiliza essas ‘normas’ nutricionais sem pensar muito não só vai achar isso contraproducente, como também acabará tendo problemas digestivos.”

Segundo Bigard, a falta de especialistas formados em nutrição esportiva na França apenas acentua esse risco, “apesar de existir uma enorme demanda por esse tipo de profissional”.

Outras tendências recentes na nutrição do ciclismo não causam tanta preocupação a Bigard, como o aumento no consumo de glicose, que ele classificou como “completamente favorável”.

No entanto, ele argumentou que o consumo de mais de 140 gramas de carboidratos por hora como forma de melhorar o desempenho não tem efeito real, pois, a partir desse ponto, as reservas de carboidrato já estariam completas.

No ano passado, o ex-ciclista da Ineos Grenadiers e atleta de Ironman Cameron Wurf disse ao Cyclingnews, em um estudo sobre um novo teste de ingestão de carboidratos, que consumiu mais de 200 gramas por hora durante um triatlo. Já o vencedor do Unbound Gravel 2025, Cameron Jones, teria consumido 190 gramas por hora por mais de nove horas.

“A glicose é o combustível essencial dos músculos, sobretudo em altos níveis de intensidade”, argumentou Bigard ao Ouest-France. “Após 90 minutos, é necessário fornecer uma fonte externa. A taxa média de absorção do organismo por meio da alimentação é de cerca de 70 gramas por hora.”

A partir da década de 2010, a adição de outro carboidrato, a frutose, que é transformada em glicose no fígado, às dietas dos ciclistas permitiu um grande aumento na quantidade total de glicose que o organismo dos atletas consegue absorver, explicou.

“Foi assim que conseguimos aumentar significativamente a disponibilidade de glicose no corpo durante exercícios de duração muito longa, como o ciclismo”, acrescentou Bigard.

“[Mas], a partir do momento em que os transportadores de glicose e frutose estão saturados, tudo permanece no trato digestivo. E isso só pode causar problemas digestivos.”

-
Fonte: CyclingNews