Todo ciclista sabe que pedalar no vácuo (ir a roda) economiza energia. Ainda assim, é impressionante como muitos praticantes, mesmo com anos de experiência, não utilizam essa técnica corretamente e acabam desperdiçando watts preciosos que fariam diferença em momentos decisivos do treino ou do pedal. A seguir, explicamos como se posicionar da forma mais protegida, entender a aerodinâmica e revezar corretamente, sem gastar força desnecessária.


O segredo do menor esforço no ciclismo

Você provavelmente já ouviu falar da clássica tática do ciclismo conhecida como CBRComer, Beber e ir a Roda. Não tem nada a ver com motos, mas resume um dos maiores mantras do esporte: gerenciar a energia da melhor forma possível.

Quando a velocidade aumenta, a aerodinâmica passa a ser o principal fator de resistência ao avanço. Pedalar no vácuo de outro ciclista pode representar uma economia de até 30% de energia, o que é enorme. Em dias de vento frontal, é possível observar diferenças próximas de 100 watts entre puxar o grupo e pedalar protegido na 4ª ou 5ª posição. É uma vantagem gigantesca.

O problema é que muitos ciclistas até aproveitam parte desse vácuo, mas não extraem todo o benefício, simplesmente por não saberem se posicionar corretamente.


Aerodinâmica: por que ir a roda funciona

Ao pedalar, o ciclista precisa vencer a resistência do ar, que depende principalmente da área frontal exposta ao vento. Além disso, o fluxo de ar ao redor do corpo, das rodas, das pernas em movimento, da roupa e do capacete gera turbulências, aumentando o arrasto.

A aerodinâmica busca fazer com que o ar flua da forma mais limpa possível, reduzindo essas forças contrárias. Atrás de um ciclista, forma-se uma espécie de “zona de baixa pressão”, um espaço onde a resistência ao ar é menor. Ao ocupar esse espaço, quem vem atrás se beneficia — e quem vai à frente também, pois o “vazio” atrás dele é parcialmente preenchido.


Onde se posicionar para ficar mais protegido

No mundo real, o vento raramente sopra exatamente de frente. Na aerodinâmica, existe o conceito de yaw (ângulo de guinada), que define o ângulo efetivo do vento em relação ao ciclista. Esse detalhe influencia diretamente onde está o melhor ponto de proteção.

Dependendo da direção do vento, a estela de proteção pode ficar levemente deslocada para a direita ou esquerda do ciclista da frente. Por isso, às vezes o melhor lugar não é exatamente atrás da roda, mas ligeiramente ao lado.

Algumas dicas práticas para identificar o melhor posicionamento:

  • Observe gramas, árvores ou bandeiras à beira da estrada para identificar a direção do vento;

  • Preste atenção no som do vento: quando ele bate direto, o ruído é contínuo; quando você entra no vácuo, o som fica mais irregular;

  • Ajuste sua posição conforme o vento muda ao longo do percurso.

Claro, sempre respeitando o tráfego e a segurança. Diferente das corridas profissionais, nem sempre é possível abrir abanicos na estrada aberta.


Distância ideal da roda da frente

Quanto mais perto, maior o benefício aerodinâmico. No entanto, esse é o ponto em que muitos ciclistas falham, seja por medo ou por falta de domínio da bike. Andar muito longe reduz o ganho; perto demais exige atenção para evitar freadas e acelerações constantes, que também consomem energia.

Para andar colado com segurança:

  • Confie no ciclista da frente;

  • Ele deve sinalizar buracos, obstáculos e mudanças bruscas;

  • Evite pedalar no vácuo de quem você não conhece bem.

Treino em grupo é essencial para desenvolver essa habilidade. Quem pedala sempre sozinho dificilmente se sentirá confortável em um pelotão.


A melhor posição dentro do grupo

Muita gente acha que o melhor lugar é no fundo do grupo, mas isso é um mito. Estudos mostram que a menor resistência ao ar ocorre a partir da 4ª posição, especialmente quando há ciclistas tanto à frente quanto atrás. Assim, você se beneficia do vácuo à frente e ainda tem quem “feche” o espaço atrás de você.


Revezamentos: detalhe que faz muita diferença

Outro erro comum nas grupetas é sempre revezar pelo lado esquerdo, sem considerar a direção do vento. O correto é revezar pelo lado protegido:

  • Se o vento vem da direita, o revezamento deve ser pela esquerda;

  • Se o vento vem da esquerda, o revezamento deve ser pela direita.

Esse cuidado reduz o desgaste coletivo e ajuda quem está mais cansado a se manter no grupo. Afinal, o ciclismo é um esporte individual e coletivo ao mesmo tempo, onde a cooperação faz todos pedalarem mais rápido e com menos esforço.