Em 1895, Curitiba — ainda grafada “Curityba” — dava um passo histórico e se tornava oficialmente o berço do ciclismo no Brasil. Na época, a cidade tinha pouco mais de 30 mil habitantes, mas já absorvia fortemente as influências culturais europeias trazidas por imigrantes, especialmente alemães. Foi nesse ambiente que nasceu o Radfahrer Club Curityba, o primeiro clube de ciclismo do país e marco fundador do esporte em território brasileiro.

A história antecede, inclusive, a chegada do primeiro automóvel à capital paranaense, que só aconteceria em 1903. Ou seja, a bicicleta foi a primeira condução mecânica a circular pela cidade, inaugurando uma transformação cultural e esportiva que ecoa até hoje.

Fernando Rosenbaum, coordenador da Associação de Ciclistas do Iguaçu: 2025 comemora-se 130 anos da criação do primeiro clube de ciclismo e 20 anos de cicloativismo na cidade (Foto: Luís Pedruco)


A chegada da bicicleta ao Paraná e o papel dos imigrantes alemães

Inventada em 1817 pelo barão alemão Karl Von Drais, a bicicleta — inicialmente chamada de velocípede — chegou ao Brasil por meio de imigrantes europeus. No Paraná, o entusiasmo veio principalmente da comunidade alemã, que não apenas trouxe o hábito de pedalar, mas foi responsável por fundar o primeiro clube ciclístico do Brasil: o Radfahrer Club Curityba.

Segundo pesquisas acadêmicas recentes, o clube foi criado por jovens descendentes de alemães, com foco inicial em passeios, excursões, encontros sociais e atividades recreativas. Com o tempo, porém, as bicicletas deixaram de ser apenas lazer e passaram a integrar disputas esportivas, tendência fortalecida após o ciclismo estrear como modalidade na primeira Olimpíada da era moderna, em 1896, em Atenas.


Curitiba abraça a bicicleta: das ruas tranquilas às competições

No fim do século XIX, Curitiba convivia majoritariamente com charretes, bondes puxados por mulas e montaria — até que as bicicletas começaram a se multiplicar pelas ruas. A popularidade cresceu rapidamente, e bicicletas passaram a ocupar anúncios nos jornais, oficinas especializadas e vitrines das poucas lojas da época.

A elite local via a bicicleta não só como transporte moderno, mas como símbolo de saúde, progresso e uma vida mais ativa. Uma publicação do jornal A República em 1901 exaltava:

“O gosto pela bicicleta se generaliza dia a dia, trazendo uma geração mais forte, vigorosa e saudável.”

O entusiasmo foi tamanho que logo outros clubes surgiram, como o Club de Cyclistas Curitybano, ligado à Associação Curytibana dos Empregados no Comércio. Sem velódromo, as corridas eram realizadas no Hipódromo do Prado Velho, que se tornou centro esportivo de múltiplas atividades.


Do ciclismo ao futebol: como o esporte moldou a vida social em Curitiba

Com o início do século XX, o futebol começou lentamente a dividir espaço com as corridas de bicicleta nos encontros esportivos da cidade. Em 1913, surgiram as primeiras discussões para criar uma liga que organizasse o futebol curitibano — processo que se consolidaria em 1915.

Esse movimento reflete uma tendência europeia da época: clubes que nasciam com foco em ciclismo passaram a abraçar outras modalidades, inclusive o futebol, que rapidamente se tornaria a nova grande paixão esportiva de Curitiba e do Brasil.


130 anos de história e 20 anos de cicloativismo: Curitiba mantém o legado vivo

O ano de 2025 marca não apenas os 130 anos do primeiro clube de ciclismo do Brasil, mas também 20 anos de cicloativismo estruturado em Curitiba — um movimento que resgatou o espírito das antigas sociedades de ciclistas e reinventou o papel da bicicleta na vida urbana.

De acordo com Fernando Rosenbaum, coordenador da Associação de Ciclistas do Alto Iguaçu e fundador da Bicicletaria Cultural, o cicloativismo ganhou força nos anos 2000, inspirado por mobilizações internacionais. Em 2005, surgiu na capital o movimento que daria origem às tradicionais bicicletadas locais.

Rosenbaum explica que, desde então, Curitiba viu nascer:

  • festivais socioculturais ligados à bicicleta,

  • praças de bolso,

  • marchas de ciclistas,

  • ações artísticas e performances urbanas,

  • debates sobre mobilidade sustentável.

Para ele, a bicicleta ultrapassou o papel de simples veículo:

“A bicicleta se tornou uma linguagem artística, uma poética da mobilidade. Hoje o cicloativismo inspira filmes, exposições, música, cultura e novas formas de viver a cidade.”


Um legado que segue pedalando para o futuro

De 1895 a 2025, Curitiba passou de “cidade pacata com 30 mil habitantes” à capital que lançou o primeiro clube ciclístico do Brasil e que continua a inspirar novas gerações. A história dos ciclistas alemães do Radfahrer Club Curityba se conecta diretamente ao vibrante movimento cicloviário contemporâneo, que luta por mobilidade sustentável, cidades mais humanas e qualidade de vida urbana.

O ciclismo cresceu, se transformou, deu origem a novas culturas esportivas e se reinventou — mas Curitiba segue carregando com orgulho o título de berço do ciclismo brasileiro.

Fontes pesquisadas

  • Arquivo histórico do jornal A República
  • Artigo acadêmico “A emergência das corridas de bicicleta em Curitiba (1895-1913)”
  • Portal Bem Paraná (matéria original)
  • Pesquisa documental sobre a história do Radfahrer Club Curityba
  • Depoimentos da Associação de Ciclistas do Alto Iguaçu