A União Ciclista Internacional (UCI) deu um passo decisivo rumo a um modelo mais integrado entre modalidades. A partir de 2027, resultados obtidos no ciclismo de pista, mountain bike, ciclocrosse e gravel também passarão a contar para o ranking do ciclismo de estrada, influenciando diretamente a atribuição de licenças WorldTour e os convites para as principais provas do calendário, incluindo o Tour de France.
A medida, aprovada em outubro, inaugura uma nova era de “sinergias” entre disciplinas — e tem potencial para alterar profundamente a formação das equipes, suas estratégias de contratação e o desenvolvimento de talentos.
Crise estrutural e necessidade de adaptação
As mudanças chegam num momento delicado. O ciclismo vive constantes instabilidades financeiras, e o fechamento recente de equipes como Arkéa, WNT–Ceratizit e Roland, além da fusão entre Lotto e Intermarché, demonstram que a crise não é exceção, mas rotina.
Para 2026, algumas equipes subirão de nível, mas o número total de projetos das duas primeiras divisões masculinas cairá de 37 para 36 — só não foi pior graças ao crescimento da ítalo-húngara MBH Bank CSB Ballan e à criação da Modern Adventure, projeto do ex-ciclista George Hincapie.
Nesse cenário, a palavra de ordem é sinergia: estruturas cada vez maiores, com equipes juniores, sub-23, elites e braços dedicados a outras modalidades, funcionando quase como “multinacionais do ciclismo”.
O modelo Alpecin-Deceuninck e o poder do ciclismo multidisciplinar
A Alpecin-Deceuninck é o exemplo mais emblemático dessa transformação. No mesmo guarda-chuva convivem:
-
Mathieu van der Poel, campeão mundial de estrada em 2023 e sete vezes campeão mundial de ciclocrosse;
-
Fabio van den Bossche, campeão mundial de Madison na pista;
-
Gianni Vermeersch, primeiro campeão mundial de gravel.
Cada um representa uma modalidade, mas todos contribuem para o mesmo projeto esportivo — exatamente o tipo de estrutura que a UCI passa a privilegiar.
Em 2025, 919 ciclistas fizeram parte das 35 equipes profissionais. Apenas 80 atletas superaram os 1000 pontos UCI na temporada. Entre eles, o único português foi João Almeida, 5º colocado no ranking mundial com 4331 pontos.
Agora, com o novo regulamento, equipes com atletas de alto rendimento em várias frentes poderão multiplicar suas pontuações.
Como os pontos das outras modalidades entrarão no ranking de estrada
As mudanças impactam diretamente o acesso ao WorldTour e os convites para grandes voltas.
A UCI passará a considerar resultados de:
-
Ciclocross
-
Mountain Bike (XCO)
-
Pista
-
Gravel
Mas somente em eventos de peso máximo:
-
Jogos Olímpicos
-
Campeonatos Mundiais
-
Copas do Mundo das respectivas modalidades
Para efeito do ranking:
-
Masculino: contam os 20 melhores pontuadores da equipe
-
Feminino: contam as 8 melhores da equipe
Pontos na pista podem superar grandes clássicas: o caso português
O impacto é enorme. Para comparação:
-
Título mundial de estrada: 900 pontos
-
Vitória no Tour de France: 1300 pontos
-
Lombardia: 800 pontos
Agora, veja a pista:
-
Madison
-
Ouro olímpico ou mundial: 2000 pontos
-
Copa das Nações: 1600 pontos
-
Campeonato Europeu: 1200 pontos
-
-
Omnium
-
Mundial: 1000 pontos
-
Copa das Nações: 800 pontos
-
Europeu: 600 pontos
-
Isso significa que um pistard de elite pode render mais ao ranking de uma equipe do que um especialista em clássicas monumentais.
Um exemplo impressionante:
Iúri Leitão somou 1800 pontos em cinco dias no Mundial do Chile (Scratch, Omnium e Madison).
Em contrapartida, acumulou apenas 197 pontos em 46 dias competindo na estrada na mesma temporada.
Para equipes portuguesas, que possuem tradição e talentos na pista, isso abre uma oportunidade inédita no cenário mundial.
Mountain bike, ciclocross e gravel também entram no jogo
A pista é quem mais pontua, mas as outras disciplinas também contam:
Mountain bike (XCO)
-
Vitória na Copa do Mundo: 250 pontos
-
Mundial: 300 pontos
Ciclocross
-
Título europeu: 100 pontos
-
Prova da Copa do Mundo: 200 pontos
-
Mundial: 400 pontos
Gravel
O gravel cresce rapidamente e já atrai estrelas do WorldTour.
No último Mundial, entre os seis melhores estavam:
-
Matej Mohorič
-
Tom Pidcock
-
Tim Wellens
-
E o campeão, Gianni Vermeersch
Se antes o gravel era visto como disciplina secundária, agora poderá ter papel direto no ranking das equipes de estrada.
O mercado de contratações vai mudar
Se a UCI mantiver as pontuações previstas para 2026, o efeito será imediato:
-
Equipes precisarão contratar pistards de elite
-
Estruturas com bom nível no ciclocross e MTB terão vantagem competitiva
-
Times menores poderão subir no ranking sem depender de estrelas milionárias da estrada
-
Atletas multidisciplinares serão ainda mais valorizados
Esse modelo pode equilibrar a disputa com as “superestruturas” e redistribuir protagonismo no pelotão internacional.
A reforma da UCI exige que equipes pensem além da estrada.
A partir de 2027, vencer na pista, no ciclocross, no MTB ou no gravel será tão importante quanto vencer na estrada — pelo menos na construção do ranking.
O ciclismo se torna, definitivamente, um esporte multidisciplinar, e quem não se adaptar, corre o risco de ficar para trás.
-Fonte: https://www.topcycling.pt/pontos-uci-revolucionam-o-ciclismo-de-estrada-a-partir-de-2027/


