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Luiz Cocuzzi - A história do ciclista olímpico criado em orfanato gerido pelos pais

    Na primeira vez que eu disputei um Mundial na elite do ciclismo mountain bike, meus pais lotaram o nosso ônibus com as crianças e foram assistir à transmissão na praça. Ligaram a tela num gerador e aproveitaram o wi-fi da pracinha de Engenheiro Marsilac, bairro mais pobre e afastado da cidade de São Paulo. Até muito recentemente, nem internet em casa nós tínhamos.
    Nosso lar fica na zona rural da maior cidade da América Latina. Aqui moramos eu, minha namorada, meus pais, meus dois irmãos de sangue, e duas dezenas de crianças e adolescentes acolhidos pelo Lar Nossa Senhora Aparecida, instituição que se mistura com minha família desde antes de eu nascer. Os pequenos são meus filhos. Os maiores, meus irmãos. Para todos, eu sou o Bu.
    O Lar é minha casa, minha família e meu clube. Aqui, dos mais novos aos mais velhos, somos todos atletas da equipe Lar Nossa Senhora Aparecida. Os menores pedalam 10 quilômetros antes de aprenderem a amarrar os sapatos. O mais velho é campeão nacional sub-65. Eu, Luiz Henrique Cocuzzi, sou só mais um dessa equipe.
    No dia 25 de julho, as luzes da nossa casa vão apagar mais tarde. Um sonho sonhado por centenas de crianças ao longo dos últimos quase 30 anos está prestes a se realizar. Pela televisão, elas vão ver pela primeira vez um ciclista do Lar disputar uma Olimpíada. Não vou dizer que é só o começo. É o meio. E, até o fim, ainda muita roda vai girar.
    Nasci e fui criado em São Paulo, mas sou um caipira. Só fui ter celular aos 19 anos, oito anos atrás. Até pouco tempo atrás não chegava sinal de internet em casa. Eu me formei atleta vendo os melhores do mundo só pelas revistas que eu lia quando ia numa bicicletaria. Os conheci primeiro pessoalmente, nos Mundiais, e só depois por vídeo.
    Quando eu cheguei na categoria júnior, comecei a viajar para fora. Fui da roça para a Suíça, sem falar inglês, para ficar dois meses no centro de treinamento da Federação Internacional. Lá, sugeriram que eu migrasse para a pista, mas minha paixão é o MTB. Sempre foi.
    Disputo Mundiais desde o júnior, há 11 anos, e fui campeão pan-americano em 2018. Depois disso, tive um problema de saúde. Segundo a médica, era um problema na lombar, mas em uma viagem para a República Tcheca descobri que eu estava com pedra no rim. Até me recuperar, perdi parte da temporada. Mesmo assim, consegui a vaga na Olimpíada.
    Essa história começa pelo meu pai, que também foi ciclista e chegou a ser profissional da Caloi, depois de vencer, com uma bike de condomínio, a Volta 9 de Julho de Estreantes. Ele não teve uma carreira longa e montou uma assistência técnica em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo. Foi lá que ele conheceu a minha mãe, que era cliente e, depois de algumas pedaladas, virou namorada.
    Moravam nos fundos da loja quando acolheram uma criança com deficiência mental que pedia esmola no farol. Quando eu nasci, três anos depois, o Rico e a Selma já eram referência na região em acolhimento de menores em situação de vulnerabilidade. Aliás, não estranhe eu chamá-los assim, e não por "pai" e "mãe", reflexo de ser criado ao lado de meninos e meninas que os chamavam assim.
    Se tem uma coisa que eu não posso reclamar é de nunca ter tido alguém para brincar. Aqui em casa sempre deu para formar dois times de futebol, e ainda sobram os reservas. Essa sempre foi a minha realidade, o meu mundo. Todos somos iguais no Lar, com os mesmos direitos e deveres. A única diferença é que eu nasci da barriga da Selma.
    O Lar já chegou a abrigar simultaneamente mais de 50 crianças e adolescentes. Parelheiros não só é a região mais pobre da cidade como é também a de menor IDH, com maior mortalidade infantil e maior taxa de gravidez na adolescência. Daí a importância do trabalho de quem se coloca à disposição para acolher jovens cujas famílias não têm condições de criá-los.
    Ao longo de 27 anos, vi centenas de jovens entrarem pelo portão do Lar passando fome, revoltados, e saírem de cabeça erguida, bem nutridos, preparados para o mundo. A parte mais difícil é quando eles vão embora. Uma hora ele é seu irmão, e na outra não tem mais contato. É como se você tivesse perdendo um ente da sua família.
    Para manter o Lar funcionando, o Rico e a Selma colocam regras que todos precisam cumprir. Inclusive eu, o Juliano e a Luiza, meus irmãos. Todos se dividem entre as funções da casa e precisam estar na cama às 21h. TV, só aos finais de semana. Relacionamentos entre moradores são proibidos. Hoje minha namorada mora no Lar, mas, por conta das crianças, dormimos em quartos diferentes.
    Por causa da pandemia, muitos atletas tiveram que começar a treinar dentro de casa. Eu faço isso desde sempre. Nasci no meio do mato, quando meus pais ocupavam uma casa abandonada. Chegamos a voltar para a cidade e morar em cima da loja de bicicleta, mas depois construímos, com doações, o bom espaço que ocupamos hoje.
    Quando eu tinha cinco anos, peguei a enxada e comecei a abrir a minha primeira pista. Hoje ela tem quatro quilômetros e é uma das principais do país. Em 2019, o Campeonato Brasileiro aconteceu no quintal da minha casa.
    Nem me lembro quando minha relação com a bicicleta começou. Fui uma criança comportada, porque meu castigo era tirar minha bicicleta. Mesmo antes de competir, eu já fazia questão de ir aos torneios, nem que fosse deitado embaixo dos bancos.
    Nós temos um ônibus, que viaja lotado de bicicletas, crianças e atletas. Quando o torneio não é em outro estado, vai todo mundo. É uma festa. Nossa equipe já foi maior, como também já foi maior o número de moradores do Lar. Manter uma instituição desse tipo não é fácil.
    Quanto mais crianças, mais gastos, e chegou um momento que não era possível alimentar todo mundo da maneira ideal. Hoje todo mundo come a mesma coisa que eu como para disputar uma Copa do Mundo. A academia que eu treino é a academia que todo mundo treina.
    Como equipe, somos muito bons. No Campeonato Brasileiro do ano passado, a Luiza foi campeã juvenil, a Angelina no infanto-juvenil, a Livia, minha namorada, foi vice no sub-23 e o Claudio ganhou bronze no infantil. Eu fui terceiro no adulto e o Rico ainda levou o sub-65. Nada mal.
    A bicicleta é também o nosso ganha-pão. O Lar é sustentado pelas premiações das competições e pela reforma e revenda de bicicletas e equipamentos. Aprendemos desde cedo a mexer nas bikes. Pelo caráter filantrópico do Lar, recebemos doações de lojas e pessoas físicas, de materiais que seriam descartados.
    Hoje temos uma condição melhor e três grupos de treinamento. O das crianças é liderado pela Selma. Vocês precisam ver essa molecada andando de bicicleta! O dos mais velhos, incluindo a minha irmã, é treinado pelo Rico. Um pessoal que já foi do Lar e hoje mora por perto vem se juntar a eles.
    E eu e o Juliano, que é três anos mais novo e também aparece no ranking mundial, somos orientados pelo Cadu Polazzo, normalmente à distância. Estamos numa zona rural, então o que não falta é estrada de terra, que costumamos percorrer, de bike ou a pé. Com 10 anos, qualquer garoto do Lar sobe pirambeira que a maioria dos adultos nem cogita subir. Eu, aos 10, subi pedalando a Serra da Cantareira. Quando queremos ir para a praia, vamos pedalando mesmo, pela Serra do Mar, até Itanhaém.
    O Brasil não tem grande tradição no mountain bike, mas lá fora o MTB envolve muito dinheiro. Eu viajo com o Juliano. Levamos nossa própria tapioca e ele cozinha para mim. Também é meu mecânico, massagista, e tudo mais que precisar. Ele faz por mim o que 10 ou 15 pessoas fazem pelos primeiros do pelotão.
    Hoje sou sargento da Força Aérea Brasileira e, na semana passada, fui contratado para fazer parte da equipe 4Fun Bike Center, ligada à Specialized. A maior parte do que eu ganho vai para o Lar. Comprei um terreno aqui do lado, financiei um carro, mas não me vejo, ainda, morando fora do Lar. Eu não preciso de luxo. Aqui eu tenho a pista, a alimentação, o descanso, minha família.
    Faço questão de competir usando um uniforme com as cores do Lar e o símbolo do Lar do no meu peito. Posso rodar o mundo competindo em cima de duas rodas. Mas meu lugar é um cantinho perdido no meio da mata na periferia de São Paulo. Meu lugar é o Lar.
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Edição: Adriano Wilkson; Edição de Imagem: Lucas Lima; Fotos: Caio Guatelli; Reportagem: Demetrio Vecchioli;

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