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Pedal, oração e natureza: uma 'receita' para enfrentar a pandemia

    No livro "Comer Rezar Amar", Elizabeth Gilbert descreve sobre uma viagem de auto descoberta e conhecimento, depois de um longo relacionamento que terminou em um divórcio agitado. Para contar a história de uma ciclista do interior de São Paulo, vamos parafrasear o título desse best-seller: “Pedalar, rezar e amar... a natureza”, assim, fica mais fácil entender as viagens de autoconhecimento da costureira Maria Ângela Zulli, que depois de cinco anos de casamento, começou um relacionamento sério com o ciclismo. “Eu me separei, em seguida casei com a bicicleta e não larguei mais. Com a ajuda da bike enfrentei muitos problemas”, conta Mazu, como é conhecida.
    A ciclista mora em São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo. Chegou a pesar 110 quilos, emagreceu 35 pedalando, mesmo convivendo com a fibromialgia e um desgaste no joelho. “Esse contato com a natureza me ajuda a enfrentar as adversidades e me reconecta com a vida”, conta Zulli, que começou andar de bicicleta para estimular o filho. “O Milton era pequeno, eu queria que ele aprendesse. Deu certo e a nossa relação só ficou mais forte. Hoje ele tem 28 anos e ainda pedalamos juntos”, comemora a mãe.
Pedalando entre os ipês em uma fazenda em Arceburgo, MG. — Foto: Acervo Maria Ângela Zulli
    Por volta dos 40 anos, Mazu teve depressão e durante três anos usou medicamentos, só que mais uma vez a bicicleta e o contato com a terra foram fundamentais. “Eu decidi que não queria ficar tomando antidepressivo. Por indicação médica, comecei a pedalar, fui melhorando e não parei mais.”, disse Zulli que anda de bicicleta pelo menos duas vezes por semana, em companhia das aves.
    Nas redes sociais da Mazu, o que não faltam são registros por onde ela passa.
“Em Águas da Prata tem um jequitibá rosa imponente e lindo, quando chego lá, aproveito para descansar e não saio sem uma foto”. No sul de Minas Gerais, ela coleciona as cores dos ipês. “Em Borda da Mata, tem as flores brancas que são maravilhosas. Em uma fazenda em Arceburgo, você passa por um caminho com árvores dos dois lados, carregadas de flores amarelas, são incríveis. Só precisa de fôlego para pedalar e aproveitar o que a natureza tem de melhor”.
Mazu faz as próprias roupas para pedalar e também produz máscaras. As entregas ela faz pedalando.
— Foto: Acervo Maria Ângela Zulli
    Durante os percursos mais longos, ela carrega na mochila seis ovos cozidos.
 “É rico em proteínas e nutritivo. Não preciso gastar com produtos industrializados. Quando aperta a fome, só tiro a casca e almoço”, conta Mara que em um dia já pedalou 180 quilômetros para chegar ao Pico do Gavião, na cidade mineira de Andradas. Ela demorou 14 horas para fazer o percurso de ida de volta. “Vale cada gota de suor, a vista lá de cima é maravilhosa”, relembra com orgulho a ciclista.
    Com 52 anos, Mazu calcula que percorre 8 mil quilômetros de bicicleta por ano e muito se deve a profissão dela: costureira. Parece estranho? Calma, tem uma explicação. “Costuro bandanas e manguitos para ciclistas e pescadores. Mas por causa da pandemia, estou fazendo máscaras também, chego a fazer 100 em um dia. Sempre que posso, eu mesmo faço a entrega”.
Pelas montanhas a ciclista encontra forças para enfrentar momentos difíceis — Foto: Acervo Maria Ângela Zulli

A fé que se "move" entre as montanhas

    Mazu já percorreu de bicicleta o Caminho da Fé seis vezes. “Sou devota de Nossa Senhora Aparecida e pedalar até lá, é uma maneira de levar até os pés da santa, toda minha gratidão pela vida. Fora que no caminho temos tempo de sobra para refletir”, relata a ciclista. O som das cachoeiras que descem com força pelas colinas é a trilha sonora da natureza que acompanha a ciclista pela Serra da Mantiqueira. Ela segue escoltada pelas araucárias que quase sempre estão presentes nos 390 quilômetros de paisagens até Aparecida.
    Geralmente Mazu leva cinco dias para fazer o percurso pelo Ramal de Águas da Prata. A ciclista que foi criada na roça, passa por sítios e pequenos municípios e em um cenário bucólico conhece as mais diferentes histórias. “Em Minas eu fiz a foto de um burrinho que seguia sozinho pela rua. Ele levava os latões de leite do sítio até o bairro rural do Cantagalo, sem o dono precisar acompanhar. O animal já estava acostumado com a rotina. Achei incrível e lembrei de quando era criança e minha mãe contava um causo parecido. Aquilo me marcou”, relembra Mazu com carinho.
    Em Estiva, Minas Gerais, ela ficou amiga do Seu Vitinho “Garapeiro” e da esposa dele, a Dona Lúcia. A história de devoção do casal é uma das inúmeras que a ciclista encontrou no "Caminho da Fé". “Em uma das minhas viagens, fiquei sabendo que a Dona Lúcia estava doente. Os dois têm muita fé e aquilo me comoveu. Quando cheguei na Basílica em Aparecida, fiz minhas orações em intenção a ela. Na outra vez que passei por lá, a Dona Lúcia já estava bem melhor. Foi uma felicidade ver os dois juntos novamente. Eles são tão unidos, tem uma relação de amor tão bonita”, relata Mazu.
Maria aproveita para registrar as paisagens do caminho — Foto: Acerto Maria Ângela Zulli

No caminho das "peras da roça"

    Em 2020 Mazu pedalou pouco, não só por causa da pandemia, mas porque teve que cuidar do irmão com câncer. “Eu viajava com ele para tratar em Barretos e nós ficávamos preocupados em frequentar hospitais por causa do vírus que estava circulando bastante, foi um período difícil para família, mas graças a Deus seguimos todos os protocolos e não pegamos a doença”, relata Mazu.
    Além de acompanhar o tratamento, era a Mazu que tentava fazer de tudo para agradar o irmão. “Ele me disse que estava com vontade de comer pera, mas não eram essas da quitanda. Queria aquelas mais durinhas que a gente chama de ‘pera da roça’. Falei para ele: onde eu vou encontrar isso? Nunca mais tinha visto essas frutas”, lembra Zulli.
    Foram semanas procurando e depois de tanto esforço, ela conseguiu com um amigo, só que não deu tempo da encomenda chegar. O irmão de Mazu morreu no dia 25 de dezembro de 2020.
Encontrar as "peras da roça" foi um momento de emoção — Foto: Acervo Mária Ângela Zulli
    Quinze dias após a morte do irmão, ela pegou a bicicleta e decidiu fazer sozinha o Caminho da Fé.
“Quando estava no hospital, eu pedi que fosse feita a vontade de Deus e que a saúde, ou, a alma do meu irmão, eu iria levar até Aparecida. Então, eu tinha algo a cumprir”, conta a decidida ciclista.
    Foi uma viagem mais longa, choveu muito durante a semana. Se no começo, a lama e as nuvens carregadas davam a impressão que a viagem tinha sido um equívoco, no meio do caminho a ciclista teve certeza que tinha tomado a decisão certa.
 “Eu ouvia o som dos pássaros, sentia o cheiro da terra e tudo aquilo foi me dando força, até que em uma curva da estrada, aconteceu algo incrível. Eu vi de longe, mas no começo não acreditei, achei que era coisa da minha cabeça, mas conforme fui me aproximando, tive a certeza do que estava bem na minha frente: um pé de “pera da roça” carregado, eram muitas frutas. Pensei: como? Sempre passei por aqui e nunca vi isso. Naquele momento eu tinha certeza que não estava sozinha na viagem. Desci da bicicleta, apanhei uma fruta, comecei a comer e desabei a chorar. Só que era uma sensação diferente, de muita saudade, mas ao mesmo tempo me sentia confortada”, disse a ciclista emocionada.
Mesmo com as dores, de alguma forma todo mundo tem que seguir em frente, nem que seja pedalando.
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