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Nossa maior ciclista de estrada desabafa: ''É vergonhosa a falta de apoio no Brasil''

Nossa maior ciclista de estrada teve um 2019 difícil, com acidentes, lesões, longas horas de fisioterapia para se recuperar das quedas. Mas, para a carioca Flavia Oliveira, 38, nada se comparou a ver o sonho olímpico de ir a Tóquio escapar de suas mãos, devido, principalmente, à falta de estratégia e de apoio das entidades brasileiras que coordenam o ciclismo de estrada no país.
Pela primeira vez em décadas, o Brasil não terá nos Jogos nenhum representante da modalidade, que é dividia entre provas de estrada e de contrarrelógio.
Além do ranking por país da União Ciclística Internacional (UCI) — no qual o Brasil não chegou nem perto de levar atletas do masculino ou feminino —, havia também a possibilidade de classificação individual. No feminino, as 100 primeiras atletas da UCI teriam vaga para Tóquio 2020, porém Flavia ficou na 109ª posição. (No masculino, o melhor no ranking ocupa apenas a 705ª colocação.)
A carioca em sua terra natal, com a camisa de pedalar que mais ama (Foto: Reprodução Instagram)
Com atuação brilhante nos Jogos do Rio 2016, onde conseguiu a sétima colocação na competição de estrada (o melhor resultado de um ciclista brasileiro na história desse tipo de prova), Flavia traz no currículo participações em importantes eventos internacionais femininos, como o Giro d’Italia e a clássica de primavera La Flèche Wallonne. E, mesmo com os reveses de 2019, ainda conseguiu conquistar um segundo lugar no Campeonato Nacional de Estrada, terceiro lugar na Volta da Costa Rica e oitavo no Grand-Prix de Plouay, na França. Não é pouca coisa para quem vem de um país com fraquíssima tradição nesse esporte.
Aos 38 anos, Flavia começou sua trajetória ciclística nos EUA, onde mora e onde teve mais oportunidade de treinar e de se sobressair do que se tivesse ficado por aqui.
Bati um papo com a ciclista, que fez um desabafo: “É vergonhosa a falta de apoio ao atleta brasileiro; e não vejo muita chance de essa situação triste mudar tão cedo”.

O que houve? Por que não levaremos nenhum ciclista de estrada para Tóquio?

São várias as razões, incluindo o fato de que algumas regras classificatórias mudaram. Por exemplo, a data para se conseguir a pontuação necessária para os Jogos foi alterada de maio de 2020 para outubro de 2019. Isso fechou nossa já pequena janela de oportunidade. Se tivéssemos até maio do ano que vem, eu tenho certeza absoluta de que conseguiria esses pontos. E a gente também não se qualificou como país, isso é bom ressaltar. Nossa única chance era, portanto, classificarmos uma atleta entre as 100 primeiras — no caso, eu era a mais próxima desses 100.

Você teve um 2019 complicado, o que não colaborou na sua batalha até Tóquio…

Eu tive, simultaneamente, uma lesão e uma suspensão (Flávia foi suspensa por seis meses, em dezembro de 2018, por uso de uma substância proibida). Voltei a competir no final de maio no Brasileiro. Fui atropelada em Guaratinguetá, com fratura de pélvis. Precisei fazer uma reabilitação complicada, porque tive que ficar no Brasil o tempo todo devido à sindicância militar que se deu após o acidente. Não foi o início ideal da temporada. Pensei até em desistir. Nunca tive apoio do Brasil. A única vez que tive apoio de uma marca de bike, por exemplo, foi durante o ano das Olimpíadas, e depois acabou.
Ou seja, o atleta brasileiro de ponta não tem apoio, sempre é muito difícil para nós. Hoje as blogueiras conseguem muito mais do que os atletas. No ciclismo brasileiro são poucos os que vão para fora e tentam a sorte lá.
Quando eu comecei, foi nos EUA, aos 26 anos, bem tarde. E me joguei de cabeça, me apaixonei pelo esporte e fui com tudo. Nunca houve investimento do Brasil em mim. Tudo o que eu fiz foi por meios próprios, com a força particular de muitas pessoas, dos amigos, da família, do meu marido.

Entidades como a Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) não ajudam em nada?

As entidades se utilizam da força de vontade do atleta e, depois, tiram proveito dos frutos que esse atleta colhe. Sem contar a politicagem envolvida. Não existe uma clareza nos métodos que eles usam para selecionar certos atletas para competições como Pan-Americano, o Sul-Americano etc.
Não sei qual é o processo de seleção, nunca fui chamada. Muitas vezes não conseguimos resposta, e pega mal para nosso lado quando perguntamos. Então ficamos calados com medo de perdermos o pouco que temos. A chance de representar seu próprio país vem das federações, independentemente se o atleta se qualificou ou não, porque no final isso depende de a CBC concordar em te chamar.

Diferentemente de países como a Colômbia, o Brasil não se dedica a formar novos ciclistas… por que isso?

É um conjunto de coisas: falta visão, falta administração, falta paciência, porque o atleta não tem como mostrar resultado logo que começa. A pressão é muito grande nesse sentido. É como uma plantinha, precisa plantar, regar e ter paciência para esperar dar frutos.
Não tem como querer resultado imediato só porque há no calendário uma competição grande. Isso desmotiva e incentiva o doping.
Não entendo essa mentalidade das federações brasileiras. Todos os países fazem um processo de crescimento e desenvolvimento do atleta para que ele chegue a seu auge, e para que fique lá o máximo possível — dando a ele oportunidade, estrutura, acompanhamento. Não é da noite para o dia que isso acontece. Tem todo um processo de aprendizado, de erro e acerto. Passei anos até conseguir dar resultados.
Tudo vem da cultura, da forma de pensamento, das organizações que estão comandando a situação. Se não tem investimento, não tem retorno. A realidade do esporte do Brasil é esta: os atletas que dão frutos estão sendo usados pelas entidades, que não investem nada neles.

Como vocês, atletas, se viram para participar de campeonatos mundiais e outras provas internacionais?

Pagamos nossa passagem para participar de provas internacionais como o Mundial, sem um mecânico, sem um apoio, nada. É cada um por si e deus por todos. É vergonhoso. Para que tirar proveito do atleta dessa maneira?
Que falta de respeito você precisar pagar para representar seu próprio país, em um esporte ao qual se dedica tanto e merece estar ali. É triste, não tem outra palavra. Não tem como melhorar, não vejo como essa situação possa mudar tão cedo.

Como é para vocês, do Brasil, chegarem lá fora sem nenhuma estrutura?

Você já começa derrotado, né? Você observa a estrutura e o valor que os outros países dão a seus atletas, e vê que não recebemos o mesmo. Infelizmente aqui querem resultado sem dar investimento. E esse sistema não funciona, não dá, é impossível.
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POR: Erika Sallum
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Fonte:  https://ciclocosmo.blogfolha.uol.com.br/2019/11/11/nossa-maior-ciclista-desabafa-e-vergonhosa-a-falta-de-apoio-no-brasil/

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