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As bikes pedem passagem

- -_As histórias de audácia e de medo de ciclistas de Porto Alegre, que desafiam o descaso e o trânsito selvagem em nome da necessidade ou do prazer de pedalar, enquanto as bikes conquistam mais espaços em cidades do Primeiro MundoA moça de capacete cor de rosa da foto pedala 20 quilômetros todos os dias para ir e voltar de casa para o trabalho. Cruza por automóveis com apenas o motorista. Pilota sua Caloi 100 com cuidado, faz sinais com as mãos, pede passagem. Mas é quase invisível no trânsito brutalizado de Porto Alegre.
- -_Para boa parte dos porto-alegrenses que circulam de carro, a pesquisadora Alessandra Teixeira Netto Zucatti, do Hospital de Clínicas, é uma usurpadora atrevida do espaço que deveria ser apenas de quem conduz algum veículo motorizado.
- -_Alessandra, 33 anos, é um dos moradores da Capital que se esforçam para corromper a lógica de que a cidade é apenas dos automóveis, caminhões, ônibus, motos. Ela e milhares de ciclistas formam um contingente cada vez maior de atrevidos. Saem cedo de casa. Pedalam quilômetros com sol ou chuva, enfrentam desaforos, fechadas, trombadas.
- -_A cidade de ruas tensas e entupidas, que acolhem mais de 6 mil novos veículos motorizados todo mês, não é deles. Mas muito do que Porto Alegre tem não existiria sem a ousadia de quem circula de bicicleta por necessidade ou por prazer, ou pelas duas coisas juntas.
- -_É o caso de Alessandra, moradora do bairro Jardim Lindoia, na zona norte. Formada em Educação Física, participa de um estudo para a Sociedade Brasileira de Diabetes na área de endocrinologia do hospital. A pesquisadora diverte-se na sua bike, apesar do estresse, das buzinadas e do risco de desafiar um dos trânsitos mais conturbados e mal-educados do país.
– Educamos os outros pelo próprio exemplo – diz Alessandra, que não tem carro.
- -_A funcionária do Clínicas faz o percurso de 10 quilômetros em 40 minutos. De ônibus, levaria o dobro. Tinha cinco anos em 1981, quando Porto Alegre ganhou seu primeiro Programa para Implantação da Rede Cicloviária. O projeto nunca foi implantado. Pedala desde os 18 anos pelos costados das ruas da cidade, prensada entre os carros e o meio-fio. Porto Alegre tem apenas seis quilômetros de ciclovias, na orla do Guaíba. São trechos sem conexão com nada, utilizados para passeios.
- -_Gente que trabalha, como Alessandra, ou que circula de bicicleta para se exercitar ou se divertir, aguarda espaços próprios para os ciclistas desde os anos 80. A espera foi renovada em maio do ano passado, quando o prefeito José Fogaça apresentou o Plano Diretor Cicloviário Integrado, com a promessa de entregar pelo menos 18 quilômetros de ciclovias ainda em 2008. Nenhum metro foi construído até agora.
- -_As ciclovias foram projetadas, já no primeiro plano, de 1981, para atender essencialmente quem pedala para trabalhar. Contemplariam as necessidades de operários da indústria, que preferem as bikes aos ônibus, por economia ou por opção, desafogariam o trânsito e contribuiriam para a redução da poluição.
- -_Há 28 anos, a Secretaria do Planejamento pensava principalmente no trabalhador braçal assalariado e nos autônomos das empreitadas, pedreiros, jardineiros, carpinteiros, encanadores, mensalistas e outros eventuais, como relembra o arquiteto João Paulo Pohlmann, um dos coordenadores do projeto.
- -_Nos últimos anos, ciclistas como Alessandra, com formação superior, juntaram-se aos trabalhadores braçais.
- -_Júlia Mottin Kuhl, 29 anos, formada em Hotelaria e professora de inglês, vai até os alunos numa Dahon fabricada na China. Tem uma camioneta cabine dupla com caçamba. A camioneta, a Rita, ‘‘porque é um carro mutante’’, não é seu xodó. Prefere a Dahon, apelidada de Elza:
– Ela é preta e bem estilosa como a Elza Soares.
- -_Júlia morou entre 1997 e 1999 em Sydney, na Austrália, e hoje circula pela Cidade Baixa. Gosta da interação com o ambiente, com as pessoas. Quando chove forte, como Elza é dobrável, enfia a bike no porta-malas de um táxi:
– O trânsito é caótico, mas pouca gente se envolve com a causa do ciclista.
- -_Alessandra e Júlia convivem nesse caos com a grande maioria de ciclistas operários, como Jardelino Cardoso Borges, 57 anos, que faz 12 quilômetros todos os dias de casa, em Alvorada, até o trabalho em uma transportadora no Porto Seco, zona norte de Porto Alegre. Jardelino quase morreu atropelado por um carro há dois anos. Tem cinco parafusos no braço direito. Mas não desiste. Ele diz o que significa andar na sua mountain bike:
– Se eu levantar cansado, tomo um banho. Se a canseira não passa, pego minha bicicleta e chego no trabalho feliz da vida. A canseira vai embora.
- -_Porto Alegre tem 480 mil veículos motorizados em circulação. Ninguém sabe, nem a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), nem o Detran, quantos são os ciclistas que andam pela cidade com o atrevimento de Alessandra, Júlia e Jardelino. Eles não têm direito ao emplacamento das bikes, à habilitação e a corredores apenas seus, espaço do qual os ônibus desfrutam desde no final dos anos 70.
- -_Os ciclistas, que dispõem de mais de 300 quilômetros de ciclovias em cidades como Bogotá, na Colômbia, onde o respeito à bicicleta é parte de um programa de inclusão social, foram derrotados pelos carros no Brasil. Transformaram-se em marcianos, como Alessandra se sente muitas vezes quando entra no Clínicas com o capacete rosa e é mirada com estranhamento. A pesquisadora conforta-se. Pelo menos se torna visível ao circular a pé pelos corredores, enquanto os carros se devoram lá fora.
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MOISÉS MENDES
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Fonte: Zero Hora - http://zerohora.clicrbs.com.br
Link Origem: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2746857.xml&template=3898.dwt&edition=13708§ion=1003

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