'Muito maior que um cog de 10 dentes': SRAM vence UCI nos tribunais e exige fim da exclusão da indústria do ciclismo
Entenda a histórica vitória judicial da SRAM sobre a UCI na polêmica disputa das marchas. Descubra como a decisão do Tribunal de Bruxelas muda as regras do ciclismo profissional.
A recente decisão do Tribunal de Mercados de Bruxelas (Corte de Apelação) marcou o fim de uma das batalhas jurídicas e técnicas mais intensas do ciclismo moderno. Ao rejeitar integralmente o recurso da União Ciclística Internacional (UCI), a justiça belga enterrou de vez o polêmico plano da federação de impor um limite estrito para as marchas no pelotão profissional.
Para a gigante de componentes SRAM, que liderou a contestação legal, o veredito representa muito mais do que a liberação de uma peça de bicicleta. Trata-se de um divisor de águas na governança do esporte, abrindo caminho para que os fabricantes e engenheiros finalmente tenham voz ativa nas decisões que moldam o ciclismo de elite.
Entenda a "Guerra das Marchas": O que a UCI tentou proibir?
O conflito começou quando a UCI tentou introduzir o chamado "Protocolo de Relação Máxima de Marchas" (Maximum Gear Ratio Protocol). Sob o pretexto de aumentar a segurança dos atletas — sob a alegação de que conter as velocidades máximas em descidas e sprints evitaria acidentes graves —, a entidade estipulou um limite de desenvolvimento de 10,46 metros percorridos por pedalada completa.
Embora parecesse uma regra técnica geral, o impacto prático dessa restrição criou uma enorme distorção comercial e competitiva que afetava quase exclusivamente os produtos da SRAM.
O impacto técnico no pelotão
A engenharia moderna das transmissões da SRAM (como os grupos topo de linha RED AXS) baseia-se em um sistema cujo menor cog do cassete traseiro possui 10 dentes. Em contrapartida, concorrentes tradicionais como a Shimano utilizam um padrão que começa com 11 dentes.
Para respeitar o limite de 10,46 metros imposto pela UCI:
Equipes que utilizam sistemas com cog de 11 dentes podiam rodar com uma coroa dianteira de até 54 dentes (54x11).
Equipes patrocinadas pela SRAM, devido ao cog menor de 10 dentes, seriam obrigadas a reduzir sua coroa dianteira para, no máximo, 49 dentes para não estourarem o limite matemático.
Essa diferença forçaria os atletas da SRAM a competir em severa desvantagem mecânica em etapas de alta velocidade e exigiria modificações logísticas e financeiras imediatas das equipes parceiras. A SRAM argumentou que a medida configurava discriminação comercial e criava um "risco reputacional", sugerindo injustamente ao consumidor final que seus componentes de 10 dentes eram inseguros.
A decisão do Tribunal: Por que a UCI perdeu?
Após ter o protocolo suspenso temporariamente pela Autoridade de Concorrência Belga (BCA), a UCI recorreu na tentativa de restabelecer a proibição. No entanto, o Tribunal de Mercados de Bruxelas rejeitou os argumentos da federação em todos os âmbitos, baseando-se em dois pilares principais:
Falta de evidências científicas: A UCI não apresentou estudos ou dados técnicos sólidos que comprovassem que limitar a relação de marchas traria melhorias reais para a segurança dos ciclistas.
Violação das Leis de Concorrência da União Europeia: O tribunal reforçou que órgãos reguladores esportivos não podem abusar de sua posição dominante. Regras com impacto econômico direto na indústria precisam seguir critérios transparentes, objetivos e não discriminatórios — o que não ocorreu no processo fechado da UCI.
"Fim da exclusão": SRAM exige assento na mesa de decisões
O CEO da SRAM, Ken Lousberg, celebrou o veredito destacando que a disputa superou a barreira técnica dos componentes e se transformou em um debate fundamental sobre como o esporte é gerido.
"Este caso começou como uma disputa sobre o nosso cog de 10 dentes. Esta decisão é muito maior do que isso. O Tribunal rejeitou os argumentos da UCI em todos os campos, incluindo a alegação de que a segurança justificava o processo fechado que eles seguiram. A porta agora está aberta e deve haver um lugar para todos", declarou Lousberg.
Com a vitória jurídica, a fabricante de componentes elevou o tom e exigiu uma reforma imediata na criação de regras técnicas do esporte. Lousberg defendeu abertamente que a WFSGI (World Federation of the Sporting Goods Industry — Federação Mundial da Indústria de Artigos Esportivos) seja integrada pela UCI como uma parceira plena no desenvolvimento de novos regulamentos. A meta é acabar com o histórico de exclusão das marcas, garantindo que quem projeta e fabrica a tecnologia do ciclismo participe de sua regulamentação.
Polêmica nos bastidores: O financiamento oculto da UCI
O desfecho do caso trouxe à tona um detalhe que gerou forte desconforto no bastidores do ciclismo profissional. Investigações revelaram que a UCI utilizou recursos da SafeR — uma entidade independente criada recentemente para auditar e melhorar a segurança nas corridas, financiada de forma conjunta por organizadores, equipes (via AIGCP) e pela própria UCI — para pagar os custos advocatícios de sua batalha legal contra a SRAM.
A revelação causou indignação, uma vez que várias equipes profissionais patrocinadas e equipadas pela SRAM acabaram, de forma indireta e involuntária, ajudando a financiar o processo judicial da UCI contra a sua própria fornecedora de tecnologia.
O futuro do ciclismo profissional pós-veredito
O desfecho deste caso estabelece um precedente jurídico crucial na Europa. A partir de agora, a UCI está legalmente impedida de impor "canetadas" técnicas ou restrições de equipamentos sob o pretexto genérico de segurança, sem antes apresentar dados científicos irrefutáveis e estabelecer um canal de diálogo transparente e democrático com o mercado.
Para o ciclista comum e para o mercado de bicicletas, a vitória garante a liberdade de inovação da engenharia, assegurando que as tecnologias desenvolvidas para o pelotão profissional continuem evoluindo de forma livre e competitiva.
Fontes: Tribunal de Mercados de Bruxelas (Corte de Apelação da Bélgica), Autoridade de Concorrência Belga (BCA), Pronunciamento oficial de Ken Lousberg (CEO da SRAM), World Federation of the Sporting Goods Industry (WFSGI), Associação Internacional de Grupos de Ciclistas Profissionais (AIGCP) / Consórcio SafeR

