SRAM x UCI: A "Guerra das Marchas" chega ao Tribunal de Apelação e pode mudar o ciclismo profissional
A disputa jurídica que coloca em lados opostos a gigante americana de componentes SRAM e a União Ciclística Internacional (UCI) atingiu um novo patamar de tensão. Em audiência realizada nesta quarta-feira, 15 de abril de 2026, no Tribunal de Apelação de Bruxelas, a fabricante de peças "dobrou a aposta" em seus argumentos contra o novo protocolo de restrição de marchas da federação, classificando a medida como arbitrária e prejudicial à inovação.
O Coração da Polêmica: O Limite de 10,46 Metros
O embate gira em torno do Maximum Gear Ratio Protocol da UCI, que pretende limitar a distância percorrida por uma bicicleta a cada pedalada completa em 10,46 metros. Na prática, isso equivale a uma combinação de marchas de $54 \times 11$.
O problema técnico reside na arquitetura dos sistemas. Enquanto marcas como Shimano e Campagnolo utilizam pinhões menores de 11 dentes, a SRAM baseia sua tecnologia no ecossistema X-Range, que utiliza um pinhão de 10 dentes.
Para que um atleta usando SRAM não ultrapasse o limite da UCI, ele seria obrigado a usar coroas significativamente menores, o que, segundo a empresa, gera perda de eficiência mecânica e retira a vantagem competitiva de sua engenharia.
A Tese da SRAM: Protecionismo ou Segurança?
No tribunal, os advogados da SRAM foram incisivos ao afirmar que a UCI está usando a "bandeira da segurança" para mascarar uma regulação que sufoca a concorrência. Os principais pontos defendidos pela marca foram:
Falta de Base Científica: A SRAM argumenta que não existem dados que comprovem que limitar a marcha máxima reduza o número de acidentes no WorldTour.
Dano à Inovação: Punir um sistema de 10 dentes que já está consolidado no mercado há anos desencorajaria avanços tecnológicos futuros.
Abuso de Posição Dominante: A fabricante sustenta que a UCI falhou ao não realizar consultas públicas com a indústria antes de redigir a regra.
A Resposta da UCI
A UCI mantém sua posição de que a segurança dos ciclistas é soberana. Com as velocidades médias do pelotão aumentando a cada temporada, a federação acredita que controlar a relação de marchas é uma ferramenta necessária para evitar sprints e descidas em velocidades consideradas incontroláveis. Para a entidade, o direito de regular o esporte está acima de interesses comerciais de fornecedores.
O Que Acontece Agora?
Atualmente, a regra está suspensa graças a uma liminar obtida pela Autoridade de Concorrência Belga (BCA) em 2025. Isso permite que equipes como Visma-Lease a Bike, Lidl-Trek e Movistar continuem utilizando seus componentes SRAM sem modificações.
O veredito do Tribunal de Apelação de Bruxelas está agendado para o dia 20 de maio de 2026. Caso a UCI perca, ela poderá ser forçada a reescrever seus regulamentos técnicos em colaboração direta com os fabricantes, mudando para sempre a dinâmica de poder entre quem faz as peças e quem dita as regras.
Fontes: Escape Collective, Cycling News, Road.cc, UCI Official Press Office, Belgian Competition Authority (BCA)
