A ASO (Amaury Sport Organisation), entidade responsável pela organização do Tour de France, descartou oficialmente a implementação de um sistema de ingressos pagos para espectadores nas etapas de estrada. A decisão surge como resposta direta à proposta polêmica apresentada recentemente pelo ex-diretor de equipe, Jérôme Pineau, reafirmando o compromisso histórico do ciclismo com o acesso livre.
A Polêmica: Cobrar Ingressos nas Montanhas?
O debate ganhou força na última semana após declarações de Jérôme Pineau no podcast Grand Plateau. O ex-ciclista sugeriu que a cobrança de ingressos em trechos cruciais, como a icônica subida do Alpe d'Huez (que figurará no Tour de France do próximo ano), poderia ser uma solução para a fragilidade financeira das equipes.
"Por que não fazer as pessoas pagarem para ter acesso às últimas partes da alta montanha? Se cobrarmos pelos últimos cinco quilômetros, isso geraria uma quantia muito boa de dinheiro para as equipes sem afetar o espetáculo," argumentou Pineau.
A ideia não é inédita. Em 2023, Richard Plugge, gerente da equipe Visma-Lease a Bike, já havia sugerido uma taxa simbólica de €10 para acesso a montanhas lotadas, visando mais a segurança e controle de multidões do que o lucro. Atualmente, áreas VIP pagas já existem em provas de um dia, como o Tour de Flandres, mas o acesso geral às estradas permanece livre.
Posição Oficial da ASO: "O Ciclismo é para Todos"
Apesar da pressão por novas receitas, a ASO foi categórica. Em entrevista ao jornal belga Dernière Heure, Pierre-Yves Thouault, vice-diretor de ciclismo da organização, encerrou as especulações.
"Em sua essência, o ciclismo é gratuito [para os espectadores] e a implementação de um sistema de bilhetes está absolutamente fora de questão," declarou Thouault.
A postura foi apoiada por figuras influentes do esporte, como Marc Madiot, gerente da Groupama-FDJ, que defendeu a tradição: "O ciclismo é um esporte gratuito e isso contribui para o seu sucesso. Vamos mantê-lo assim."
A Crise Financeira das Equipes do WorldTour
Embora a cobrança de ingressos tenha sido rejeitada, a discussão expõe um problema real: a disparidade orçamentária no WorldTour.
Vincent Lavenu, ex-chefe da AG2R La Mondiale, e Valerio Piva, da Jayco-AlUla, destacaram que as equipes de ciclismo vivem um modelo econômico frágil. Diferente do futebol, as equipes não recebem parcelas significativas dos direitos de transmissão de TV ou de bilheteria.
Dependência de Patrocínio: Lavenu alertou que, com a saída de patrocinadores (como visto no colapso recente da estrutura da Arkéa-B&B Hotels), times menores lutam para competir contra equipes com "orçamentos ilimitados" apoiadas por Estados ou multinacionais.
Dúvidas sobre a Receita: Piva acrescentou ceticismo sobre a proposta de ingressos: "Em teoria, é uma boa ideia, mas no Tour de Flandres o dinheiro vai para os organizadores. Não acho que seria diferente em corridas por etapas."
Por enquanto, o fã de ciclismo pode ficar tranquilo: as margens das estradas do Tour de France continuarão abertas e gratuitas, preservando a alma popular do esporte.
-Fonte: https://www.cyclingnews.com/pro-cycling/races/tour-de-france-owners-aso-dismiss-idea-of-paid-ticketing-system-for-spectators-at-cycling-races/

